Uma cultura feita por mãos negras

Por Ana Carolina Martins

Nasci e vivi em uma comunidade periférica, onde a cultura negra se manifestava a todo momento nos sorrisos, nas cores vibrantes, nos adinkras dos portões, nos retalhos de tecidos e ritmos contagiantes, tudo junto e misturado numa roda de samba domingo à tarde, regado à galinhada no fundo do quintal. 

As extensas bordas chamadas periferias, que são territórios negros, há muito tempo constituem o palco para inúmeras produções artísticas e culturais de negros amefricanos, aquilombados nas encostas e extremidades do Brasil afora, povos guardiões de uma herança cultural de raízes milenares, que há séculos contribui para a formação da cultura e identidade brasileira.

É importante destacar que a cultura negra, da qual falo, não se limita apenas à música, culinária e dança, mas permeia imaginários simbólicos, lutas históricas, mandingas e corporeidades múltiplas. Das práticas cotidianas de sobrevivência à excelência dos modos pretos de fazer, transmitidos de geração em geração, dão contorno à nossa essência. Uma tapeçaria de múltiplas linhas e influências de povos: Bantos, Iorubás e filosofias que se entrelaçam com as raízes de diversos povos indígenas originários, formando este mosaico pluriétnico que chamamos de “Cultura Brasileira”. No entanto, é fundamental reconhecer que, apesar de sua importância, a Cultura Negra ainda segue negligenciada, excluída de políticas públicas culturais significativas e apagada das narrativas históricas. 

Ao observar a realidade atual, a partir de dados da pesquisa “Cultura em Evidência” duas questões são cruciais para analisar o panorama ao qual sobrevive a Cultura Negra no Brasil. Primeiro, a persistente desigualdade no acesso à própria cultura que produz e lhe pertence, com pessoas pretas, pardas e indígenas enfrentando maiores obstáculos decorrentes às desigualdades de renda e educação.

Em segundo lugar, o mercado da Cultura e Criatividade que tem um impacto significativo na economia global, representando 3,1% do PIB mundial e no Brasil, 8% da força de trabalho. No entanto, há uma face oculta nessa narrativa retórica de “futuro promissor”. A economia criativa e cultural brasileira abriga parcela significativa de trabalhadores informais, onde a desigualdade racial se manifesta de maneira gritante. Pretos e pardos são maioria no setor informal, muitas vezes ocupando posições de menor qualificação e recebendo salários mais baixos, assim como os trabalhadores do samba e das culturas populares, que carregam a responsa de “não deixar o samba morrer”, mesmo que para isso tenham que sacrificar um pouco de si todos os dias. É como ter um pote de ouro que só tem valor, se for vendido por mãos brancas: uma luta contra a apropriação cultural.

Quando discutimos a Cultura Negra no Brasil, devemos ir além da celebração e refletir o quanto o Brasil perde economicamente mas também viola direitos coletivos a mais de 500 anos, elaborar de forma crítica os porquês do Brasil negar suas origens e nos perguntar: o que seria do Brasil sem as influências africanas e de afrodescendentes? E sem a exploração da mão de obra de pretos e pardos? Os trabalhadores da cultura carregam os tambores mas não vão à festa, nem ao cinema, nem à exposição, mas sabem que sua cultura e história estão agora lotando algum museu onde seu povo não entra. 

Como deixamos de ser uma economia criativa que beneficia aqueles que nada produzem? Valorizar a cultura negra para mim é reconhecer o valor nas pessoas que a fazem –  mãos negras que tecem cada pedaço dessa trama cultural, sofisticada, tecnológica, coletiva e ancestral – que criou uma cultura diaspórica complexa, plural e exuberante, tornando o Brasil uma gigante potência cultural.

É urgente nos concentrarmos a combater as desigualdades por meio da economia criativa e cultural que passa sim pela valorização da cultura negra na diáspora, mas também passa pelas condições de vida das populações negras brasileiras, de mestres e mestras que são verdadeiras bibliotecas da Cultura Viva, os incontáveis talentos de realizadores periféricos, a originalidade das artes quilombolas, a sagacidade de movimentos e coletivos de negritude afirmativa – estes são os protagonistas da cultura negra, que resistem criativamente a todas as formas de opressão e epistemicídio, driblando todas as estratégias de aniquilação para continuarem espalhando sementes crioulas de uma cultura ancestral e pluriversal. Abrir espaço para que a cultura negra prospere não é apenas um ato de justiça social, mas uma forma de reparação, de quem tem o dever ético de reconhecer as contribuições materiais e imateriais dos povos africanos e afrodescendentes para esta nação. Reparação como forma de investimento social para gerar emancipação, autonomia e o fortalecimento de nossas produções culturais, movimento essencial para a construção de um Brasil que respeite a sua própria história e tenha orgulho do DNA que carrega.

Ana Carolina Martins
Ana Carolina Martins, é ativista pela equidade, pesquisadora da história e cultura afro-brasileira, especialista em estratégias de impacto e comunicação para causas sociais, atual Diretora e co-fundadora da iniciativa social A Visionária Lab. Profissional multidisciplinar com 15 anos de atuação, com experiências em diversas empresas e organizações.. Nos últimos 5 anos tem atuado com foco no setor de economia criativa e cultural, com coletivos de cinema e comunicação periférica, realizando a direção de documentários socioculturais, pesquisas e roteiros, direção criativa de campanhas afirmativas, produção de conteúdos e mentorias para programas de empreendedorismo social. Finalista na categoria empreendedorismo criativo e cultural no Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as artes de 2022. Mulher negra, guiada por fortes valores humanitários e perspectiva afro-brasileira, periférica e latina. Acredita no poder da criatividade, das novas economias em conexão com as tecnologias ancestrais para impulsionar mudanças estruturais e coletivas. Como liderança, fomenta uma cultura inclusiva e busca processos de trabalho mais eficientes através da implantação de metodologias catalisadoras de inovação e colaboração. Como Design thinking, Pretagogias, Cartografias afetivas e métodos ágeis. Assina a direção do premiado documentário Visionários da Quebrada, lançado em 2018 em circuito de impacto social, distribuído em 6 plataformas de streaming + de 300 exibições em circuitos de cinema, cineclubes e instituições de ensino. Com + 50.000 pessoas impactadas em 45 cidades do Brasil e 2 festivais internacionais na Europa. Dirigiu o Canal Preto durante o ano de 2020, onde foram produzidos mais de 70 conteúdos pautando raça, trabalho e gênero em parceria com ONU Mulheres e Ministério Público do Trabalho. E ainda como diretora realizou o webdocumentário Sinfonias Negras em coprodução com UOL lançado em 2021 e o curta metragem Doc Cidade em parceria com a Énois Conteúdo no ano de 2022.