Tradição hoje

Por Renata Amaral

Políticas públicas para a cultura podem mudar sensivelmente o cenário e a  construção artística e social de uma geração. A virada para os anos 2000 trouxe uma  vontade política de construção de uma identidade cultural e o interesse de vários  segmentos da sociedade pelas tradições populares. Foram criados muitos editais públicos  de empresas privadas e estatais, bancos e programas do recém retornado Ministério da  Cultura como o Cultura Viva e os muitos que dele se derivaram, também de órgão públicos  como o IPHAN, FUNARTE, Fundação Palmares e outros, além de fundos estaduais e  municipais de fomento à cultura. Mesmo recursos pequenos impactaram muito  positivamente nessas comunidades, trazendo ganhos financeiros, de valorização do  entorno, no interesse de jovens lideranças que agora remaram o barco durante a  tempestade da pandemia, e seguem na resistência. 

É preciso que essas culturas sejam entendidas como o patrimônio que são:  Riqueza, moeda de troca na globalização, conhecimento, ferramenta, e, assim como  nossas florestas, diversidade necessária para a saúde do planeta. É necessário também  que sejam reconhecidas como arte contemporânea, vigorosa, que acontece hoje, não por  impulso preservacionista mas por gosto, pertencimento, necessidade de expressão e  organização das estruturas corpóreas, sociais, espirituais do indivíduo e sua comunidade. 

Esse século trouxe também um ouvir de vozes diversas que tornou mais visível  o trabalho de pensadores africanos e indígenas, e também mais necessária a revisão  decolonial dos conceitos que perpassam sociedade, ciência, arte. Os guardiões desses  saberes são os que fazem sua cultura resistir e dialogar com seu entorno, e, portanto, são  os que sabem e devem decidir o quê, quando e como essas políticas devem ser  desenvolvidas e implantadas.  

As tradições populares engendram códigos estéticos altamente sofisticados para a  expressão artística de seus indivíduos, pensados para a inclusão de suas características e  limitações, cuja apreciação pelos próprios pares constrói relações sociais e aprimora suas  necessidades funcionais. Assim, ela deve ser integrada também às políticas para a  educação, não só pelo seu material e repertório, mas pelas ferramentas artísticas e  educativas da tradição oral, de caráter interdisciplinar, altamente inclusivo e facilitador de  construções coletivas desse repertório.

Renata Amaral
Formada em Composição e Regência, mestre e doutora em Performance Musical pela UNESP, tem se apresentado como contrabaixista em todo o Brasil, América Latina e Europa ao lado de artistas como A Barca, Ponto br, Tião Carvalho, Sebastião Biano, Orquestra Popular do Recife e outros. Pesquisadora, realizadora audiovisual e musicista, desde 1991 reúne um dos mais significativos acervos de tradições populares brasileiras, o Acervo Maracá, tendo produzido mais de 30 CDs e 23 documentários de gêneros tradicionais que receberam diversos prêmios nacionais e internacionais como o Latin Grammy, Rodrigo Melo Franco de Andrade/IPHAN, Rumos Itaú Cultural, 23o Prêmio da Musica Brasileira, Prêmio Cláudia, Petrobras Cultural, Troféu Guarnicê e outros. Recebeu por duas vezes o prêmio Interações Estéticas da Funarte, realizando residências artísticas no Maranhão e no Benin que resultaram em livros, mostras e documentários. Autora dos livros Pedra da Memória e Nganga, com seus grupos A Barca e Ponto br, gravou 6 CDs e realizou mais de 500 apresentações em projetos de circulação, registro e arte educação. Ministra cursos e oficinas com foco em Cultura Tradicional em escolas e universidades no Brasil e exterior.