A cultura do abismo: centralização financeira e desvalorização da diversidade

Por Evelyn Gomes

Um dia nascemos em uma cidade do interior e somos bombardeados pela televisão e pelas conversas sobre como tudo o que é bom está nas grandes cidades. No caso de Alagoas, a cidade grande é Maceió. Entretanto, finalmente, quando chegamos em Maceió, descobrimos que o que é realmente bom está em cidades ainda maiores, como Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Porém, ao chegarmos a essas cidades, deparamo-nos com altos índices de violência, poluição, disputas em diversos espaços como nas vagas de trabalho, dificuldade de mobilidade urbana, preconceito e desafios financeiros que não teríamos de enfrentar se tivéssemos permanecido em nossas cidades natais.

É importante compreender que em cada cidade, vila ou povoado existe cultura. No entanto, quando consideramos a cultura como arte e fonte de sustento, fica evidente o abismo que existe entre os grandes centros urbanos e cidades menores nos interiores dos estados, onde muitas pessoas conseguem obter renda e sustento por meio da cultura e arte. À medida que seguimos Brasil adentro, percebemos que a cultura ganha força em suas manifestações de caráter popular, representando uma forma de expressão, comunicação e celebração para as pessoas daquele território, mas frequentemente com acesso limitado (ou quase nulo) a remuneração. 

No modelo urbano brasileiro, as capitais são tradicionalmente as cidades mais populosas e financeiramente privilegiadas. Nos últimos dez anos, houve um esforço de inovação e modernização de muitas cidades do interior dos estados, especialmente em termos de infraestruturas públicas como hospitais e universidades, reduzindo a disparidade de acessos em relação às capitais. O que podemos observar com esses investimentos em inovações nos interiores brasileiros é que eles não ocorreram visando uma transdisciplinaridade e autonomia dos territórios. O que temos acompanhado são cidades do interior que cresceram sem o devido cuidado em relação à continuidade e à valorização da cultura local.

Contudo, compreender que a arte e a cultura são partes fundamentais da economia criativa implica em adotar uma abordagem sistêmica para estimular a inovação e impulsionar o crescimento econômico, contribuindo assim para um desenvolvimento sustentável e dinâmico da sociedade. É de suma importância não apenas estabelecer políticas públicas eficazes, mas também promover a formação de agentes culturais e políticos que reconheçam a cultura como facilitadora da participação, compreensão, construção e acesso das pessoas comuns às políticas culturais. Para isso, é imprescindível que essa compreensão vá além das fronteiras do governo, operando em colaboração com a descentralização dos recursos e envolvendo financiadores, filantropia, ongs e empresas privadas.

Evelyn Gomes
Evelyn Gomes, nascida em Arapiraca/AL, é diretora do LabHacker – laboratório focado em atuar nos pilares de política, arte e tecnologia com pedagogias de autonomia – desde 2017. Graduada nas ruas de São Paulo, cidade que adotou por 12 anos, é idealizadora do Observatório Caso Braskem, consultora em gestão de projetos, design de serviços e inovação social, sempre valorizando a colaboração e o respeito à individualidade de cada pessoa da equipe. Atualmente, está se especializando em políticas públicas de cuidado e Gestão Ambiental. Como ativista, atuou nos coletivos Baixo Centro e Ônibus Hacker, em diálogos entre ocupações de espaços públicos, autonomia e políticas a partir das pessoas e vem atuando para a organização de respostas em casos de crimes e desastres socioambientais.