Recorte amazônico no caminho da diversidade

Por Jander Manauara

Eu não poderia começar meu texto sem demarcar a área de recorte da região amazônica que é por onde me entendo como agente atuante em vários seguimentos artísticos e produção, o fato de parecer que o Brasil descobriu a Amazônia há pouco tempo revela o quanto a arte e seu corpo nessa região foi e continuará sempre sendo resistente. Num lugar onde a logística traz além de distancia inimagináveis recursos que são descritos em planilhas de editais e que in loco revelam o triplo e até muitas vezes 30% de todo gasto apenas para levar uma companhia de teatro pra alguma localidade ribeirinha, por exemplo, mostram o quanto de cuidado temos que ter desde o entendimento de quem lida com leis de incentivo até quem as escreve e muito mais com cadência e lupa ocular pra esse recorte de regiões para, aí sim, começarmos a entender mais profundamente sobre democratização de acesso e descentralização de recursos dentro das políticas culturais.

Ao meu ver, a crescente informalidade poderia ser um ponto de partida para chegarmos a esse acesso, buscar aproximação de investimento privado tendo como referência organizações periféricas que dialogam com um mais amplo e diverso público, meios de comunicação e aproximação com órgãos, como o sistema “S” do Sebrae ou dentro de associações de bairros com oficinas para acompanhamento desses tais coletivos até sua formalização, vejo um rombo cultural no quesito gestão, quer seja de negócios ou das ações praticadas por muitas coletividades, ensino de gestão e de base seria um grande reforço para alcançarmos essas grandes de investimentos e de cultura que alcance uma maior capilaridade territorial.

O mundo flui e surfa na onda da ASG e institutos e fundações, por estarem em centros de debates, muitas vezes em regiões com norte e nordeste, funcionam com “atravessadores” desses investimentos por captação, redes de conexões e o crivo disso tudo é validado na própria região com poucos personagens inseridos nos projetos que levam muitas vezes no nome e na descrição do projeto seu local identitário com marca para vendas desses produtos fazendo com que o acesso e aporte financeiro chegue ou defasado ou de forma “reduzida”, vide porcentuais de investimentos em leis de incentivo nessas regiões. A própria logística é desafiadora e o formato cultural do país que enxerga a região amazônica como linha de produção dos pátios industriais como a zona franca de Manaus, não buscam deixar sua marca como forte parceiros sustentáveis da floresta, além de empregos muitas vezes terceirizados e com poucos direitos ao fim dos contratos onde os que decidem estão nos grandes centros e como alcançar recursos diretos, até mesmo para uma simples reunião, onde quem bate o martelo para investimento está tão longe ou se quer pisa nesses territórios e áreas fabris.

A vasta produção e representação indígena também não pode passar batido no tema, ainda há muito o que pensar e como incluir os grupos étnicos diversos, tratando como início a linguagem materna de cada povo, por exemplo em São Gabriel da Cachoeira no Amazonas temos 23 povos indígenas e 5 troncos de famílias linguísticas e que entre muitos membros nem é utilizado o português, um meio para esse alcance passa por formações, oficinas dentro das

organizações que já atuam e que tenham validações do próprio território para repasse de editais e entendimento de políticas culturais com participação desses agentes diversos locais.

Estamos de costas para a América Latina e a região norte fazendo fronteira com países importantes e próxima de cidades como Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia, tem trabalhado para se transformar em modelo de desenvolvimento urbano sustentável na região e no mundo, digo isto, pela miscigenação e pela aproximidade territorial já que o sonho sulista parece tão distante, então o que esses países com esse clima semelhante nortista trazem também de inovação em suas políticas públicas que faz com que esses povos tenham tanto pertencimento local, algo que na região norte tem como uma grande problemática (agora com forte retomada indigena) mas, ainda tímido para as massas que aplaudem muito o que é “de fora” o pertencimento e reconhecimento de suas identidades também trarão essa consciência tanto de reinvidicação como de apropriação das políticas culturais devidas.

Um ponto a ser considerado são as atuais formações dos conselhos de culturais estaduais e municipais por onde passam o Plano Nacional de Cultura que estão engessados em poucos representantes para os mais diversos seguimentos que não tem sua atuação dentro desses debates e construções de políticas precisamos ter atualizações nos números de cadeiras e conselheiros e conselheiras que dialoguem com a diversidade que contemplem os povos minoritários, é importantíssimo essa renovação de cadeiras representativas.

Reforço o trabalho em fortalecer o pertencimento local, como se mostra importante para pontos cruciais de partida como a criação do Ministério dos Povos Indígenas e toda retomada desses povos indígenas na moda, na arte e no fomento em redes, na luta pela demarcação com projetos que dialoguem e envolvam às comunidades não só na produção e execução mas também na área criativa, queremos fazer parte dos processos desde o início, queremos estar nas concepções de ideias e acabamento final dos produtos, da disceminização dessas políticas, fóruns, conferências, e pertencer não como validação de falas, mas como agentes ativos dessas transformações diversificadas.

A Amazônia legal também precisa ser vista pela sua diversidade e entender que alcançar o Acre não é o mesmo que alcançar Amapá com diferenças locais muitas vezes impostas num bloco todo como “Amazônia” o fato é que uma rede de conexões como o próprio espaço o é, um tapete tecnológico, que já poderia ser capilarizado para alcançarmos essa amplidão e diversidade que existe nesses locais. Fortalecer os agentes, coletivos, organizações, narrativas, formações em redes criativas, quer hub ou startups culturais para que se entenda esses investimentos públicos e privados, leis de incentivos, boas práticas e ideias, hackathons, encontros e aproximar linguagens, bom sempre acredito que a coletividade move um mundo mais amplo e diverso, esse é o caminho que acredito, invisto meu tempo e minha luta.

Jander Manauara
Rapper, Artivista e Articulador cultural. Amazonense e natural de Manaus, acadêmico de Produção Cultural e estudante de Direção de Fotografia na Academia Internacional de Cinema, há 20 anos atuante no cenário Hip Hop Nortista, idealizador do Coletivo de Hip Hop – Origenas, membro da Associação Intercultural de Hip Hop Urbanos da Amazônia, assina a produção artística da Virada Sustentável Manaus 2017-2022 e da Feira de criatividade da FAS, articulador cultural da plataforma Namaloca. Em2021 foi homenageado como uma das vozes atuantes na luta pela agenda climática pela ONU Brasil. Agente de transformação local atuante em redes de conexões por todo território da Amazônia Legal.