Produzir dados para colocar a cultura democrática em evidência

Por Luana Vilutis

Em uma era de pós-verdade, inundada por fake news e fascinada pelos chatbots de inteligência artificial generativa, a coleta de informações e dados emerge como uma ferramenta vital para fomentar o pensamento crítico, combater o autoritarismo e desafiar a monocultura do discurso único. Sistematizar experiências e gerar conhecimento a partir delas tornou-se um exercício pedagógico de desalienação, cada vez mais urgente e essencial para transformar a realidade social, fortalecer a democracia e assegurar a centralidade da cultura na contemporaneidade.

No Brasil, o campo da cultura foi historicamente marcado pela escassez de indicadores e a falta de pesquisas seriadas que permitam identificar tendências e planejar ações orientadas por evidências. Até hoje não dispomos de um Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais – SNIIC abrangente e capilarizado que funcione organicamente e cumpra seu propósito sistêmico. A informalidade que permeia o setor cultural no Brasil certamente contribui para essa lacuna. Além disso, falta uma cultura de sistematização de informações e produção de dados no campo cultural, o que impacta tanto a gestão pública da cultura quanto o cenário das produções artísticas e culturais, bem como seus sujeitos e agentes.

Alguns esforços foram feitos para reverter esse quadro. Não podemos deixar de mencionar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE com o Sistema de Informações e Indicadores Culturais – SIIC e o início da construção da Conta Satélite da Cultura, o PIB da Cultura, que infelizmente foi interrompido com a extinção do Ministério da Cultura em 2019. Recentemente, no âmbito das políticas públicas de cultura, o Observatório da Economia Criativa da Bahia – OBEC realizou uma pesquisa nacional significativa sobre os resultados da implementação da Lei Aldir Blanc – LAB nos estados e municípios. No que diz respeito à sustentabilidade de organizações da sociedade civil articuladas em rede, vale destacar o Mapeamento da Rede Mineira de Pontos de Cultura realizado em 2021 em parceria com o Observatório da Diversidade Cultural

Além de garantir financiamento à pesquisa na área cultural, outra forma de promover e incentivar a coleta, análise e divulgação de informações no campo da Cultura é mobilizar processos participativos e em rede. Compreender e disseminar a produção de dados e indicadores como um processo pedagógico, essencialmente formativo e coletivo, de diálogo e troca, é fundamental. Esse processo deve estar integrado a um planejamento maior, resultando em ações concretas. Afinal, não produzimos conhecimento apenas para retratar a realidade, mas para incidir nela, para traçar ações mais assertivas de transformação de desigualdades e assimetrias. A produção de dados não é uma ação resignada, mas sim engajada. Ela serve, ou deveria servir, para subsidiar políticas e ações culturais democráticas.

Luana Vilutis
Socióloga e educadora, trabalha com formação e pesquisa em estudos intersetoriais de cultura e economia solidária. Pesquisadora do Observatório da Diversidade Cultural – ODC e do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura – CULT/UFBA. Doutora em Cultura e Sociedade pela UFBA, Mestre em Educação pela USP com pesquisas voltadas à análise dos alcances e limites de políticas públicas de cultura na promoção da diversidade cultural brasileira e da sustentabilidade de organizações da sociedade civil.