O Funk como ferramenta fortalecedora das potencialidades periféricas 

Por Yasmin iaLuny – Instituto Kondzilla

O funk, integrante da cultura popular brasileira como é, cumpre seu papel não só como ferramenta de diversão e entretenimento, mas como o registro de uma época, pensamentos, hábitos regionais e fortalecedor de identidade e autoestima. Além do fomento pessoal e profissional de uma comunidade.
Foi assim no funk melody, com Cidinho e Doca, MC Marcinho, Claudinho e Bochecha, Perlla e tantos outros nomes que iniciaram os caminhos de artistas que ouvimos hoje. 

Do melody ao 150bpm, o espaço do Funk do só cresceu: foi além das letras que reforçam a necessidade da descriminalização do funk (como em Rap do Silva), passando por criador de tendências até o espaço crítica social que furam bolhas (tal qual Bum Bum Tan Tan viral como incentivador da campanha de vacinação do Covid-19).

Pr’além de alcançar as rádios e paradas mundiais, a promoção do funk movimenta a economia local e alimenta o ecossistema o qual pertence. Segundo a FGV, só no estado do Rio de Janeiro, são 900 bailes que recebem 1,23 milhões de pessoas que geram mais R$ 7 milhões só em bilheteria, sem contar o consumo de bebidas, alimentos e toda a pré-produção em volta que a gente sabe que acontece, como a colocação de unhas e cílios, corte na régua e aquela roupa nova. Carreiras e vidas inteiras se consolidam sob a base do funk, tornando a sua importância ainda maior, uma indústria sólida.

Instituições e projetos nasceram exclusivamente em nome do Funk, como a Kondzilla, por exemplo. E o estilo tem sido fio condutor para criação e expansão de histórias, auxiliando na autoestima e descobertas tendo o funk como trilha.

O Funk então, comprova através das suas inúmeras vertentes, o poder instigante de convidar para novos conhecimentos como em The Beat Diaspora, projeto de conteúdo desenvolvido pela Kond que exalta o ritmo como fruto da resistência negra e diaspórica através dos diferentes estilos do ritmo.

O consumo do funk pelo mundo só cresce. Segundo o Spotify, o gênero cresce pelo menos 51% todo ano desde 2014 e foi um dos mais ouvidos em 2020 em 51 países! Na mesma batida do crescimento do funk pelo mundo, o estilo também é estudado em diversas universidades estaduais e federais através de cursos como Letras, Educação Física, Filosofia e Ciências Sociais. O estilo é um dos instrumentos periféricos da retomada da própria narrativa, do resgate da conexão ancestral e do sentimento de empoderamento coletivo.  
A moda também não se distancia disso. O Funk e a cultura periférica inspiram tendências e fazem parte da construção de narrativas fashionistas como no lançamento da coleção 02/2017 da À La Garçonne que teve como trilha o funk e o vídeo-performance que juntou música clássica, o Theatro Municipal de São Paulo e a  batida do funk como condutor do conteúdo do lançamento.

O Funk é um potencial transformador de realidades, seja através da educação, da economia, da descoberta da capacidade criativa, da expansão de histórias e referências ou da junção com outras ferramentas e estilos. O exercício de imaginar em quais outros lugares o ritmo pode levar jovens que são embalados pelo ritmo é um convite a toda comunidade que acredita na criatividade e na arte como educadores sociais.

Enquanto houver um funkeiro e uma mente criativa, novas pontes podem ser construídas. O que não faltam são terrenos a serem explorados e histórias aguardando incentivo, espaço e ferramentas para gerarem novos beats para a nossa realidade.

Yasmin iaLuny – Instituto Kondzilla
Yasmin ialuny é jornalista, modelo e filha de família matriarcal negra. Nasceu no Rio de Janeiro e tem os estados brasileiros como espaço a explorar: se graduou no Rio Grande do Sul fronteira com a Argentina, mora em São Paulo, mas adora passar tempo em outras cidades para conhecer culturas e novas culinárias. Cresceu como atleta de basquete, ama feira de rua, brechó e o universo da escrita. Ainda na graduação escreveu um livro-reportagem sobre a profissão de modelo no Brasil.