Mapeamentos das dinâmicas culturais na contemporaneidade

Por Eduardo Augusto Sena

O patrimônio cultural brasileiro é vasto e plural, e constitui um componente importante da formação de nossa identidade nacional. Mapear e dar visibilidade a este patrimônio tão diverso, seus artífices, redes e circuitos, contudo, são desafios formidáveis, em razão de sua dispersão geográfica, das particularidades locais e, mesmo, do caráter dinâmico e processual do próprio fazer cultural. Contemporaneamente, tanto a produção como o mapeamento das manifestações culturais têm sido impactadas pela tecnologia. A ampliação do acesso aos dispositivos eletrônicos conectados à Internet têm permitido novas formas de produção, circulação e consumo de serviços e conteúdos culturais: sob o paradigma resultante das tecnologias de informação e comunicação e das redes de compartilhamento, uma dinâmica sociocultural renovada começou a ganhar forma. Neste contexto, a criação de plataformas digitais com sistemas de georreferenciamento de dados também tem permitido a criação de cartografias virtuais, o que deu origem a projetos de mapeamento de equipamentos, atores e eventos culturais e sua relação com o território.

Na cidade de São Paulo, em 2014, a transformação do site SP Cultura, originalmente dedicado à divulgação da agenda de programação e dos equipamentos da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), em uma plataforma de acesso gratuito (desenvolvida em software livre) e colaborativa de mapeamento é um exemplo das possibilidades abertas pela tecnologia: ao permitir a inserção de dados pelos próprios atores, tomou a forma de um repositório dinâmico do cenário cultural paulistano, dando visibilidade aos agentes, espaços, eventos e projetos culturais distribuídos pelo seu território. Até 2020, a plataforma também foi utilizada para a inscrição de propostas aos editais realizados pela SMC, o que conferia à plataforma uma dupla funcionalidade.

No entanto, a dispersão característica do ambiente virtual, a competição com diferentes ferramentas de compartilhamento de informações e as diferenças socioeconômicas de acesso aos dispositivos e à internet colocam desafios para a criação e a atualização destes mapeamentos digitais. Como engajar a sociedade civil em projetos com este objetivo? Como torná-los perenes e aderentes à realidade dos diferentes atores do campo cultural? Na tentativa de responder a estas questões, teceremos abaixo algumas considerações.

Inicialmente, é fundamental que os projetos de mapeamento levem em conta as diferenças de acesso às infraestruturas da Internet (especialmente à Banda Larga) existentes entre diferentes regiões do país e mesmo no interior das cidades: tais assimetrias dão forma a um processo de estratificação digital que reproduz desigualdades sociais, individuais e coletivas. O que demanda a criação de plataformas que possam ser acessadas inclusive por dispositivos mais simples, através de conexões de Internet de menor velocidade.

Em segundo lugar, seria interessante que tais iniciativas oferecessem mecanismos para a construção de um conjunto de dados e informações sobre o campo cultural, a partir de uma metodologia que diferencie as ações, atores e instituições de acordo com a sua natureza. Neste sentido, caberia avaliar estratégias que permitissem a extração e compartilhamento dos dados em formatos de texto ou planilha, por exemplo.

A possibilidade de se contribuir para a concepção e produção deste conjunto de informações pode fortalecer o engajamento da sociedade e tornar o mapeamento uma plataforma não apenas da publicização individual de cada agente, mas um espaço coletivo de construção de dados e evidências sobre a realidade dos territórios e as especificidades de cena cultural. Neste sentido, a extroversão de dados permitiria sua utilização pelos diferentes atores, de acordo com os seus interesses, com potencial para contribuir positivamente no desenho de políticas públicas e no planejamento das ações de diferentes instituições.

Para que isto se torne realidade, seria necessário aliar ao processo de autoinscrição descentralizado de informações pelos diferentes atores (exercício dinâmico e colaborativo) estratégias de curadoria, análise e consolidação destes dados, de maneira a torná-los acessíveis para o processo de construção de indicadores sobre as diferentes dinâmicas da cultura. Solicitar aos atores, por exemplo, o preenchimento de um formulário sobre apoios e financiamentos recebidos, bem como a participação em editais e projetos, pode ajudar não apenas no processo de construção destes indicadores, mas também facilitar e orientar a atuação de diferentes agentes pelas oportunidades abertas pelo campo da cultura.

Eduardo Augusto Sena
Bacharel em Administração Pública pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre e doutor em Cultura e Informação pelo programa de pós-graduação em Ciência da Informação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Atua e pesquisa no campo das políticas culturais desde 2006, tendo exercido funções de assessoria e direção no Theatro Municipal de São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, Instituto Pedra e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.