Cultura, periferia e negócios, impactos que causam transformações de dentro pra fora.

Por Dj Bola

A música me mostrou a cultura Hip Hop, cultura que me fisgou, mostrou vários caminhos possíveis de encarar a realidade que vivo em vários sentidos e aspectos, sejam sociais, econômicos, interpessoal e coletivo, desde que me conheço e me reconheço como indivíduo, a cultura foi a base da busca por outros conhecimentos, curiosidades e conexão interior. Eu, um jovem de periferia, acima do peso, sem habilidades esportivas, sem tecnologia digital, sem dinheiro e nem comunicação moderna, só me reconheci como indivíduo único, por conta da cultura Hip Hop, que chegou até mim, e fez com que eu olhasse pra mim como potência, não sabia ao certo que tipo de potência seria, mas ali sabia que seria somente eu. Isso em um contexto social, geográfico e sem acesso, incomparável ao que é hoje.

Para mim a cultura tem proporções que vão além do entretenimento, existem diversos negócios na cultura que vem causando impacto, no sentido do impacto de romper o ciclo da pobreza, ao mesmo tempo que geram empregos, criam novas personalidades e referências das quebradas. A base da pirâmide é a quem mais sente a realidade pela falta de emprego e a falta de fomento ao desenvolvimento de negócios da cultura e do mercado da música que vem da periferia, temos um histórico de acessos precários a equipamentos públicos e a não valorização da cultura que vem da periferia, muitas das vezes invisibilizados, desacreditados, desvalorizados, estereotipados, muita das vezes não botam fé no nosso negócio, tão pouco dão valor na cadeia de desenvolvimento e fornecedores envolvidos nas entregas.

Existe um mercado gigantesco com oportunidades de geração de emprego, renda e novos empreendimentos, porém são pouco os espaços que possibilitam aprofundar conhecimentos do mercado da música e cultura que vem da periferia, existe os termos jovem “nem, nem” que nem trabalha e nem estuda, também o “sem, sem” sem oportunidade e sem acesso. A grande pergunta é, quem está olhando para as vocações dos jovens para além do trabalho formal? Existem algumas iniciativas voltadas para a empregabilidade e educação que é essencial, mas e os outros jovens que querem viver da cultura e da música, nesse mercado que é tão promissor que movimenta um PIB de 3.6B na economia do país? E voltado especialmente para os jovens da periferia? São poucas as ações com esse cuidado e viés.

As leis de incentivo fiscal como Rouanet, ICMS entre outras, deveriam ser uma garantia de manter projetos culturais e o fomento da cultura nas periferia do Brasil, ainda se mantém o dinheiro carimbado de incentivo fiscal centralizado para aqueles que tem mais rede, mais influência, mais visibilidade nos meios de comunicação, são esses que acessam a maioria dos recursos destinados a cultura, investimento social privado e filantropia, é necessário abrir um diálogo e direcionar de forma intencional os recursos para cultura que vem da periferia, por longo prazo seguido de estratégia e várias mãos e corações trampando juntos.

Para que haja mudança é necessário discutir o papel da cultura na sociedade como um todo, por exemplo: desde o ensino nas escolas, ter e valorizar a cultura como negócio, estilo de vida e opção política; as fundações e institutos, poderiam destinar parte do dinheiro de investimento social privado para manter polos de fomento a cultura das periferias com investimento direto, isso por longo prazo; estabelecer alianças de impacto da periferia com famílias ricas, podendo criar mini fundos e/ou mini endowment a fim de garantir a perenidade contemporânea das culturas em seus devidos territórios; dar visibilidade aos fazedores de cultura, promovendo uma aliança de utilização das culturas de forma justa e equilibrada e respeitosa contratando os seus serviços e produtos desses empreendedores; 

Para nós, na A Banca, ir buscar, estudar, empreender, compartilhar, cruzar as pontes são caminhos para garantir nossa luta, sobrevivência e continuar fomentando a cultura como negócios que causam impacto de dentro pra fora nas periferias.

Dj Bola
Dj Bola A Banca como é conhecido, é pai de 3 filhos, Dj Turntabilista, produtor musical e cultural, empresário e empreendedor social de impacto, cofundador da Associação A Banca e A Banca Negócios de Impacto da Periferia – ABNIP. A A Banca, ela nasce como um movimento cultural juvenil em 1999 no Distrito do Jardim Ângela, época em que era o lugar mais violento do mundo, segundo a ONU, em 2008 se torna uma associação e passa a ter o título de OSCIP – Organização Social Civil de Interesse Público e o certificado de Instituição Cultural reconhecida pelo Governo de Estado de São Paulo Secretaria de Cultura e de Economia Criativa. Dj Bola também é cofundador da ANIP – Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia juntamente com a Artemisia e o Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas