Cultura e periferia

Por Tiaraju Pablo D’Andrea

As periferias das grandes metrópoles brasileiras foram formadas por pessoas oriundas de diversas regiões e com distintas experiências culturais. Essa diversidade de modos de vida encontrou um solo fértil para troca e partilha nesses territórios marcados por processos de urbanização acelerados e precários. Desses encontros deriva a potencialidade das periferias, mais heterogênea que os espaços onde habita a classe média. Diversidade de modos de vida propicia diversidade artística. Pensar políticas de cultura para as periferias é fundamentalmente incentivar a pluralidade de origens e de linguagens presentes nessas localidades, plenas de fazedores de arte e de cultura. 

No entanto, a maioria dos artistas das periferias tem uma trajetória econômica instável, dependendo de editais públicos e privados sazonais e de contratações que poucas vezes os valorizam. Estes profissionais necessitam de programas que pressuponham assalariamento ou bolsas que garantam sua produção e sobrevivência. Países como a França adotaram esse sistema. O artista, quando auxiliado, produz mais e melhor.

Em paralelo, é muito importante existirem políticas estatais nos territórios, seja em casas de cultura, fábricas de cultura ou CEUs. Esses equipamentos devem possuir financiamento, infraestrutura, planejamento e continuidade, visando alcançar a totalidade da população e sempre tendo como meta a potencialização das aptidões artísticas de todo ser humano. A cultura é um direito humano e social básico.

Fundamentalmente nas periferias, a arte tem possibilitado superar dilemas sociais e econômicos. Nos últimos trinta anos, um amplo movimento cultural propiciou uma melhoria objetiva nas condições de vida das comunidades e potencializou as subjetividades, transformando-se em um dos processos mais vigorosos ocorridos no Brasil. Com apoio, este movimento poderia fazer muito mais pela nossa sociedade.

Tiaraju Pablo D’Andrea
Tiaraju Pablo D’Andrea. Professor da Unifesp/Campus Zona Leste. Coordenador do Centro de Estudos Periféricos. Autor do livro: “a formação das sujeitas e dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo” (Editora Dandara, 2022)