Cultura como ferramenta para a crise climática

Por Eduardo Carvalho

Estudo publicado pela prestigiada revista científica ‘Nature’ apontou evidência pioneira sobre o impacto da arte no engajamento do público em favor da luta climática. Cientistas usaram dados e gráficos ligados a pesquisas sobre mudança do clima e transformaram as informações em obras de arte mais abstratas. 

De acordo com o estudo, as descobertas indicaram que quem viu as obras sentiu emoções mais fortes em relação a quem observou apenas os gráficos, e que entre aqueles que viram as visualizações artísticas, surgiu uma tendência à mudança de opiniões em relação à pauta do clima, podendo gerar engajamento em ações.

Sugere-se com a investigação que uma maior colaboração entre profissionais da ciência e da cultura pode ser importante ferramenta no enfrentamento da crise ambiental. Ainda que quem produza cultura soubesse empiricamente que diferentes formas de cultura gerassem transformação em pessoas, esta é a primeira vez que a ciência comprova que a cultura pode catalisar transformações. 

Mas há um grande desafio pela frente. É preciso refletir sobre como diferentes setores culturais, como arte contemporânea e outras manifestações artísticas, podem contribuir para que diferentes audiências entendam a urgência de conservarmos nossa casa comum, e de que é preciso lutar contra negacionistas e a desinformação. 

No Brasil há casos pontuais que promovem a sinergia arte-ciência pelo o bem-estar comum, como museus de ciência ou exposições de curta duração que cumprem o papel de provocadores e divulgadores científicos. Mas por estarem em grandes centros urbanos, ficam longe de parte considerável da população, que permanece sem acesso a maior oferta de atividades culturais por falta de políticas públicas ou desinteresse da iniciativa privada.

Fazedores de cultura têm um papel político em relação à discussão da mudança climática e não podem silenciar diante deste desafio global. Ao citar o papel de museus em relação a emergências sociais, Maria Vlachou, autora do livro “O que temos a ver com isso? O papel político das organizações culturais” ressalta que essas instituições são “ferramentas de poder que decidem o que deve ser lembrado e o que pode ser silenciado”, e que isto é sentido e compreendido por muitos cidadãos, “tendo um impacto decisivo na natureza” (Editora Tigre de Papel, 2022).

Para Jorge Melguizo, ex-secretário de cultura de Medellin, cidade na Colômbia que reduziu os índices de criminalidade graças ao aumento de investimentos na Cultura, a adoção de ações culturais para mitigação de impactos ambientais pode ser instrumento de desenvolvimento social e econômico – assim como foi com o combate à violência urbana.

Em entrevista à pesquisadora de economia criativa Cláudia Leitão para o livro “Criatividade e emancipação nas comunidades-rede (Editora Martins Fontes, 2023), Melguizo afirma que “a cultura e o meio ambiente são as principais riquezas do Brasil e da América Latina, e que ainda não entendemos o valor de ambas as riquezas”. “O que aconteceria se decidíssemos formular planos de desenvolvimento de nossos países com base nessas duas enormes riquezas?”, provoca o colombiano.

Criar oportunidades de discussão sobre a mudança climática por meio da cultura é um desafio da contemporaneidade. Precisamos agir diante da emergência climática, que traz impactos graves à biodiversidade e à saúde da população como resultado da ação humana descontrolada.

A cultura pode ser, portanto, instrumento de promoção de narrativas poderosas, que promovem uma transformação da sociedade pela empatia, fomentem a criação de novos hábitos de consumo e desenvolvam soluções criativas para um mundo mais sustentável e menos desigual.

Eduardo Carvalho
Curador de exposições e gestor cultural, é jornalista com experiência em redações brasileiras. Desenvolve projetos nacionais e internacionais que usam a cultura, tecnologia e design para engajar a audiência sobre os impactos da mudança climática na sociedade. Foi curador-assistente e editor artístico do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, onde concebeu diversas mostras e experiências. Mestre em Gestão da Economia Criativa, foi bolsista do programa Chevening Clore Fellowship, no Reino Unido, focado no desenvolvimento de emerging leaders em economia criativa, artes e cultura. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2018. Concebeu por dois anos o Brazil Climate Action Hub, pavilhão da sociedade civil na Conferência da ONU sobre clima. É um dos criadores da coleção Educação Climática com a Turma do Pererê, da Editora Inteligência Educacional, focada em compartilhar informações sobre a mudança climática para o Ensino Fundamental e que possui ilustrações de Ziraldo.