A cultura somos nós: culturas indígenas deste Brasil

Por Moara Tupinambá

Nós, povos originários, descendentes dos primeiros da nação – antes mesmo deste país se chamar Brasil –, sempre produzimos cultura, pois somos essencialmente cultura. Cultura é vida, é a nossa língua, nossos costumes, nossas crenças, nossos saberes ancestrais, nossas tradições, perpassadas de gerações para gerações. Sobrevivemos porque preservamos nossas culturas. A cultura é o nosso maior pertencimento, sempre em conexão com a natureza. Somos de uma cultura milenar, que persiste e resiste. Desde as nossas tradições, dos grafismos, dos ritos, da maestria de nossas cerâmicas, de nossas cestarias, das danças e cantos, até à criação de músicas com ritmos de rap, hip hop, das pinturas em telas, e artes digitais. 

As nossas culturas sempre interagiram entre as etnias de Pindorama e, mesmo com a colonização, resistiu ao sistema colonial dominador. Algumas vezes, sincretizamos com as culturas que aqui chegaram, tanto com a dos povos vindos de África, como também com a dos brancos. Mas, sobretudo, buscando garantir a nossa sobrevivência, ou seja, preservar a cultura que nos constitui enquanto povos originários. Contudo, vale ressaltar que a cultura não é estanque, ela é dinâmica, e interage com o contexto histórico. Podemos citar, como exemplo, o Carimbó, que é um ritmo originário da nossa região Amazônica, muito praticado pelos povos de origem Tupi, e que conversou, posteriormente, com os povos vindos de África. Temos, principalmente na região do Pará, muitos mestres do Carimbó, e percebemos suas diferenças e particularidades regionais, dependendo da região onde ele foi produzido. No Tapajós temos o Carimbó das mulheres indígenas, como As Karuana e o Grupo Suraras do Tapajós, que é bem diferente do Carimbó criado no Marajó, por exemplo.

As demandas de políticas públicas para indígenas, no Brasil, devem ter em consideração os mais diversos contextos nos quais hoje estão inseridos. Há os povos indígenas em territórios demarcados, e autodemarcados, mas também há os que vivem em contexto urbanizado, os quais se desvincularam, por algum motivo, de suas aldeias, às vezes por mais de uma geração. Conforme o último Censo do IBGE, mais de 1 milhão de indígenas (63,27%) vivem fora dos territórios homologados. Ainda de acordo com o censo de 2022, a “população indígena dobrou nos últimos 12 anos, totalizando 1.693.535 pessoas residentes no Brasil, correspondendo a 0,83% da população. Desagregando a população indígena pelo recorte de Grandes Regiões, a Região Norte destaca-se como aquela que concentra 44,48% da população indígena do País, com 753357 pessoas indígenas. A Região Nordeste concentra 31,22% da população indígena (528 800 pessoas indígenas), seguida da Região Centro-Oeste, com 11,80% (199 912 pessoas indígenas), da Região Sudeste, com 7,28% (123 369) e da Região Sul, com 5,20% (88 097 pessoas indígenas). Cabe destacar que as Regiões Norte e Nordeste concentram 75,71% da população indígena residente no País. A Região Sudeste apresenta o percentual mais elevado de população indígena residente fora das Terras Indígenas, com 82,56% (101 850), seguido do Nordeste com 75,43% (398 866) e do Norte com 57,99% (436 861). As pessoas indígenas residentes fora de Terras Indígenas no Amazonas e na Bahia correspondem a 51,67% (553 672) da população indígena residente fora de Terras Indígenas em todo o país. O Amazonas possui 341 780 pessoas nessa situação geográfica e a Bahia 211 892.”.

Analisando estes dados, percebemos a urgência e o esforço, que deve partir do Estado, na construção de políticas públicas para a área da Cultura dos povos originários. Tais políticas precisam ser construídas junto com os povos originários, com a participação de indígenas que já estão inseridos na preservação da nossa cultura, e que lutam para que não sejamos subalternizados, e subjugados pela cultura dominante. Pontos de cultura precisam ser fortalecidos nas bases, de forma que, os povos originários não tenham que sair de suas aldeias para conseguir recursos nos grandes centros, onde circula o capital que patrocina as artes. 

Por sua vez, os indígenas que vivem em contexto urbanizados, além de preservarem muitos saberes ancestrais, nunca deixaram de produzir cultura dialogando com esse contexto, se relacionando com outras culturas, e criando artes que são chamadas de contemporâneas. Se faz necessário possibilitar caminhos para estes artistas, que buscaram a arte para sobreviver, mas se mantiveram conectados com as comunidades, ajudando-as, haja vista sequer chegar políticas públicas básicas nos territórios.

O Museu de Culturas Indígenas em SP é um ótimo exemplo, que precisa ser implantado em todas as cidades do Brasil, pois é gerido também por povos originários, e com curadoria indígena. Editais de patrocínio à cultura, específica para povos originários, precisam ser mais acessíveis, para que tanto indígenas que vivem em periferias nas cidades, quanto indígenas que vivem em aldeias,  consigam acessar, e possam também se beneficiar. É necessário que, arte e educação caminhem sempre juntas, garantindo a valorização, preservação, e continuidade das culturas indígenas para as próximas gerações, e assim o povo brasileiro se autoconheça, valorize e respeite a diversidade cultural, promovendo a autoestima cultural deste país.

A nossa história e memória precisam ser inseridas nos projetos de políticas públicas, para que conheçam a nossa história, o nosso protagonismo, a partir de nós mesmos. Um bom exemplo são construções de Museus da Memória Indígena, como podemos citar o Museu Jenipapo Kanindé, construído desde 1995, pela comunidade indígena Kanindé do Ceará, preservando a memória e identidade deste povo.

Os povos originários tem uma riqueza de cultura material e imaterial de mais de 305 povos no Brasil, devendo ser tratado como um patrimônio da humanidade. Diferentemente dos não indígenas, a nossa cultura não está desvinculada da  nossa Mãe natureza, e somos nós que estamos segurando o céu para não cair, como já anunciado por Davi Kopenawa. Para um futuro ancestral, é preciso cuidar da cultura originária, se quisermos ainda sobreviver enquanto humanidade em Pachamama.

Moara Tupinambá
Moara é artista visual e ativista das causas indígenas e luta contra o apagamento étnico do indígena que vive em contexto urbano e rural. É natural de Mairi (Belém do Pará), nasceu em cidade peri-urbana, atualmente está radicada em Campinas. Sua ancestralidade genealógica origina-se da região do baixo Tapajós ( Vila de Boim e Cucurunã ). É vice-presidente e comunicadora da associação multiétnica Wyka Kwara. É multiplataforma e utiliza nas suas expressões artísticas: desenho, pintura, colagens, instalações, vídeo-entrevistas, fotografias e literatura. Sua poética percorre cartografias da memória, identidade, ancestralidade, resistência indígena e pensamento anticolonial. Ganhou o 8º Prêmio de Artes do Instituto Tomie Ohtake em 2022. Fez parte da residência de artistas do MAM RIO 2021. E ganhou também o Prêmio 67º Salão Paranaense do Museu de Arte Contemporânea do Paraná – MAC-PR em 2020 com o projeto “Museu da Silva”.